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Doping, hipocrisia e alta performance

Leia o post original por Antero Greco

O técnico chegou bufando ao coquetel que antecedia o debate sobre doping no estúdio da ESPN Brasil. Era o ano de 1999.

“Vocês não sabem com quem estão mexendo” – alertou o técnico, bravo, na época importante figura do esporte nacional.

Até hoje não sabemos o que ele queria dizer.

O debate era sobre as denúncias do médico Júlio César Alves, com consultório em Piracicaba, ortomolecular formado pela Unicamp. O dr. Júlio tinha dado uma entrevista em que admitia cuidar de 30 atletas de ponta do Brasil, que integravam várias equipes que iriam ao Pan de Winnipeg.

O doutor Júlio seria o entrevistado na mesa-redonda. E o técnico bravo era um dos atingidos pela denúncia: um de seus atletas era paciente dele.

E dr. Júlio sentenciava: “Ninguém sobe ao pódio se não estiver fazendo uso de substâncias proibidas pela lei do esporte…O resto é hipocrisia.”

A frase do médico piracicabano é definitiva: o esporte carrega emoção e histórias maravilhosas, mas é cercado pela hipocrisia comercial, que envolve obviamente o doping.

Vários casos explodiram no mundo desde então. O último com a musa Maria Sharapova.

Quando os inocentes de plantão pensavam que apenas os russos se dopavam, vem um “doutor Júlio britânico”, de 38 anos, para falar a mesma coisa 17 anos depois: o dr. Mark Bonar deu entrevista neste final de semana ao “The Sunday Times” para dizer que receitou EPO, hormônio de crescimento e substâncias proibidas para 150 atletas ingleses.

De ciclistas, tenistas, lutadores de boxe a jogadores de críquete e futebol.

E daí?

Daí que a agência britânica de controle de doping ( UKAD) recebeu denúncias contra o médico entre abril e maio de 2014 e não tomou providências. Será que alguém acredita que o esporte de alto nível é limpo? Será que algum técnico dos grandes times ingleses atingidos pela denúncia vão cercar o dr. Mark Bonar pelas ruas de Londres e mandar a frase?: “Você não sabe com quem está mexendo”.

Hipocrisia e alta performance andam de mãos dadas pelo milionário mundo do esporte.

(Com participação de Roberto Salim.)

Doping só para Sharapova e russos?

Leia o post original por Antero Greco

Crônica de Roberto Salim.

O esporte brasileiro andou muito tempo atrasado quando o assunto era doping. Agora, infelizmente, já atingiu o primeiro mundo das substâncias proibidas. Os órgãos nacionais responsáveis pelo controle andam a passo de tartaruga, mas temos um número considerável de atletas consumidores de droga na lista de dopados.

Houve um tempo em que a inocência imperava em nossas equipes. Dona Vanda dos Santos, por exemplo, participou da Olimpíada de Helsinque, em 1952, e para ficar mais competitiva nas provas de atletismo o técnico lhe dava gemada.

Mais recentemente, pouquinho antes dos anos 2000, acompanhando um treinamento da Beth do levantamento do peso, fui com ela até um açougue na cidade de Viçosa, onde mora até hoje. Falavam que a creatina era boa para a saúde e ela foi pedir ao açougueiro alguns olhos de boi – pois lhe falaram que havia creatina neles. Beth nunca usou a creatina vendida nos potes grandões de substâncias mágicas de academias.

Mas o mundo do esporte não é feito só de donas Vandas e de Bethes, que competiu nos Jogos Olímpicos de Sydney. O esporte é um grande negócio, como mostra a Olimpíada do Rio, com suas obras pomposas. E, para brilhar no alto nível, vale tudo: primeiro é preciso ter talento; depois, bem, depois vale fazer o que for preciso para ganhar, assinar contratos milionários, agradar patrocinadores e vender de tudo.

O ídolo vende. O fã compra, hipnotizado.

E o doping é doce ilusão – para quem toma e arca com os efeitos colaterais. E também para quem acredita que é possível vencer, subir no pódio, sem usar algo a mais para bater o inimigo.

A bola da vez é a Rússia.

Parece que só os atletas russos são apanhados no antidoping. Maria Sharapova teve exame positivo no Aberto da Austrália. Será que no mundo elitista do tênis só Maria tem culpa no cartório?

E ela teve a dignidade de assumir o erro. Não transferiu culpa para laboratórios de manipulação.