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Jovens versus veteranos

Leia o post original por Flavio Prado

Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

A discussão continua e é tola. Treinadores jovens ou veteranos? Sou a favor dos dois. Um bom treinador, ou executivo, ou dirigente, precisa, nos dias de hoje, de um preparo acadêmico para ajudá-lo em todos os setores de uma empresa como deve ser um time de futebol. E os “veteranos” nem sempre aceitam estudar. Como os jovens só têm como porta de entrada a universidade, já que não têm vivência.

Claro que precisamos dos dois. A rodagem de quem já jogou e os estudos de modernidade de quem está chegando. Mas, infelizmente, falta humildade para muitos dos dois segmentos. Os jovens por vezes não respeitam a história e os mais velhos não aceitam os meninos, que chegam com conhecimento da modernidade.

Não há modelo definitivo. Depende da individualidade. Mas se formos pegar um teórico sistema ideal a união das duas forças poderia levar nosso futebol a um novo nível. Precisamos de mais diálogo, mais seminários, mais discussão sobre o jogo que estamos mostrando.

Seguramente a auto suficiência é um dos motivos da decadência que vivemos nos últimos anos. É preciso baixar a bola, entender que o momento do futebol é muito diferente do passado. Precisamos de todos. Caso não tenhamos essa união a tendência será só piorar. Nós do futebol ainda podemos recuperar o jogo no Brasil, mas é preciso correr. A distância está ficando cada vez maior.

Faz 51 anos

Leia o post original por Flavio Prado

Era fim da tarde do domingo 17 de dezembro de 1967. Estádio do Pacaembu. Um garoto cabeludo e mal vestido respirava com dificuldades, o coração quase na boca, esperando o final do jogo entre São Paulo e Corinthians. Era decisão. A primeira na vida do garoto de periferia, acostumado a perder tudo no dia a dia. O São Paulo ganhava. 1 a 0. O moleque pobre seria campeão com seu time amado.

Seria. Aí veio a bola cruzada, o toque de Ditão e o gol de Benê. Tragédia. O menino da Penha teve certeza que nada daria certo para ele. Não poderia imaginar que aquele não era o pé de Benê, era a mão de Deus mudando a vida dele e de toda a família. O garoto saiu inconsolável. Durante anos guardou a bandeira de “campeão”, que comprara antes, com a economia de muitos meses.

E voltou para a feira vender bananas, em troca de bananas. Sim o salário era pago em mercadoria e vinha embrulhado em jornal. Bendito jornal A Gazeta Esportiva de 31 de dezembro de 1967. Bendita crônica de Horácio Marana, gênio da escrita e outra interferência de Deus na vida do menino. O “salário” da primeira semana de janeiro veio embrulhado na última página daquela edição. E estava lá a porta da mudança: “Os Gols Malditos de Dezembro”, assinado por Horácio Marana.

Lendo aquilo o moleque viu um mundo desconhecido. A emoção através da escrita, da palavra, do Jornalismo. E passou a acreditar que podia. Anos depois em 1974, lá estava ele entrando na redação do iluminado jornal. E a Gazeta Esportiva abriu as portas e a nova vida para o menino. Depois disso toda uma família foi mudada. A dignidade, o respeito, a consideração inexistentes antes, passaram ao convívio daquela gente, antes tão sem esperanças.

Querido Benê e seu gol “maldito”. Amado Marana e seu texto Divino. Obrigado sempre. Sinto como se estivesse fazendo aniversário. E hoje achei a narração do jogo com o amigo Fiori Giglioti. Quer escutar? :  https://www.youtube.com/watch?v=gCKFwo6Wk0k     Nunca tinha ouvido. Chorei muito. Deus está em cada passo que damos. As vezes não entendemos a lógica. Mas ela existe. Faz 51 anos que “nasceu” Flavio Prado, um simples moleque, que não parecia ter muito futuro lá nos fundões da Zona Leste.

Escola para todos

Leia o post original por Flavio Prado

Foto: CBF

O curso da CBF está sendo motivo de polêmica pela ausência de Renato Gaúcho. Ele quer suas férias e tem razão, mas os outros estão lá e isso exigirá uma posição da entidade. Se punir Renato, campeão da Libertadores, com proibição de trabalho fará papel ridículo. Caso não o puna estará desmoralizada e, automaticamente, liberando todo mundo no futuro.

Não conheço o curso da CBF. Os treinadores costumam elogiar, até porque pela cultura histórica, nunca houve preocupação com estudos no nosso futebol. Pelo contrário, há até um certo preconceito contra os estudiosos. Gostam do ver e fazer e da prática sem preparação, um dos grandes motivos do atraso que vivemos há anos.

A UEFA tem esses cursos há décadas. Só alguém que fez lá e aqui pode comparar o nível dos dois. O certo é que o da CBF não serve na Europa. De qualquer forma finalmente saiu-se do zero. Algum proveito sempre virá . O grande problema está no preço. Para quem fizer os cursos B, A e Pró, o custo chegará a 100 mil reais. Quem pode pagar isso?

O estudo precisa ser massificado no Brasil. Estamos muito atrasados, jogando futebol com táticas superadas e sem criatividade. Só com muita gente trabalhando para mudar, poderemos evoluir. A rica CBF não poderia fazer pelo menos isso pelo futebol brasileiro, bancando os treinadores iniciantes e de equipes menores?

Nunca houve uma diferença tão grande de nível entre Europa e América como agora. Parece outro esporte. A reação não pode ser modesta. Os treinadores brasileiros inexistem nos grandes mercados, cheios de argentinos, colombianos e até chilenos. Reconhecer que se ficou para trás pode ser um bom início.

Mas se limitarmos o ensino a pouco mais abastados, não sairemos do lugar. Passou da hora da CBF liberar seu curso para mais gente. Mesmo que ele seja, eventualmente, bem inferior ao da UEFA, já será o começo de algo que deveria ter sido feito há muito anos. Escola de futebol para todos. Menos empirismo. Só assim o futebol brasileiro poderá renascer.

As escolhas erradas de Sampaoli

Leia o post original por Flavio Prado

Foto: AFP

Ele é um cara diferente, avançado nas ideias do futebol, estudioso e têm conceitos que gosto muito e respeito. Mas nos últimos tempos o argentino Jorge Sampaoli tem feito escolhas inacreditáveis. Não sei o que ocorreu com ele, mas sei que a carreira que era só ascendente, cada vez mais fica sob ameaça. As escolhas erradas de Sampaoli estão custando caro.

Quando surgiu no futebol e se destacou na seleção chilena, Sampaoli mostrou que era possível ganhar com jogo ofensivo, futebol de marcação alta e revezamento constante de jogadores, inclusive em suas posições de origem.

Foi ao Sevilha e montou um belo time, ganhando títulos e mostrando qualidades mesmo enfrentando gigantes como Barcelona e Real Madrid. Aí indicou Ganso para o clube, algo inexplicável, já que o jogador brasileiro tem apenas habilidade, mas é lento e pouco participativo no jogo coletivo. Era improvável que desse certo e rapidamente virou um mico na Espanha.

Sampaoli aceitou então dirigir a bagunçada seleção argentina, outra que não tinha como se ajeitar numa situação onde nem a AFA tinha presidente. Foi cobrado por um título mundial que não teria como vir. Pagou caro pelo segundo erro grave de avaliação.

Agora deverá vir para o Santos. Quem terá capacidade de analisar o trabalho dele? Quem conhece minimamente as teses e sistemas que ele emprega? Vão exigir resultados imediatos e qualquer derrota no campeonato paulista, que seja, implicará em cobrança enorme. Afinal ele faz diferente e isso no Brasil costuma ser quase um crime hediondo.

A genialidade que Sampaoli demonstrou tantas vezes como treinador não o acompanha na gestão de carreira. Claro que torço muito para que ele dê certo. Torci quando indicou Ganso e quando trocou o Sevilha pela seleção argentina, mesmo sabendo que era uma torcida em vão. E agora, nessa aventura no futebol brasileiro, vou torce novamente, mesmo duvidando muito que dê certo. É praticamente impossível.

Amadores e outros bichos

Leia o post original por Flavio Prado

Al Ain e Team Wellington abriram o Mundial de Clubes com um jogo divertido. Os amadores do Wellington abriram 3 a 0, mas até por terem outras profissões e só treinarem no período noturno 4 vezes por semana, cansaram e cederam o empate. Nos pênaltis deu Al Ain. Divertido. Mas é isso que queremos?

Campeão do mundo tem que ser grandão. Será, é claro, mas essas partidas para simplesmente termos todas as confederações representadas, têm algum significado? Porque não fazem jogos entre eles, separadamente, e entram apenas como figurantes que são, com um ou dois representates, entre os verdadeiros times gigantes?

Se a ideia é fazer festa tudo bem, mas daí a considerar esse torneio importante vai uma distância enorme. Não é a toa que os europeus ignoram. Disputam a Champions e depois isso. Não dá. Gosto de ter um time campeão do mundo. Mas que seja grande de verdade, numa competição de força. Não esse festival de periferia com grife.

Modelo superado

Leia o post original por Flavio Prado

Nos grandes clubes do mundo empresas gigantescas estão por trás dessas marcas maravilhosa.

 

Três mil pessoas decidiram o futuro do Flamengo nos próximos anos nas eleições do último sábado. Mais ou menos o mesmo número que manteve Mauricio Galiotte no comando do Palmeiras. Cito esses dois casos porque são recentes, mas é assim em grandes clubes brasileiros faz tempo.

Se esse modelo serviu algum dia, hoje está muito superado. Um pequeno grupo de conselheiros ou sócios, sem qualquer responsabilidade com o futuro financeiro da agremiação, não têm esse direito. Até porque muitas vezes seus votos são comprados por benefícios pessoais, que não ajudam em nada as ideias coletivas.

Nos grandes clubes do mundo empresas gigantescas estão por trás dessas marcas maravilhosas. O Manchester City que era um mero vizinho do grandão United, hoje é uma holding de futebol com times no mundo inteiro e enorme representatividade. Mas é uma pessoa jurídica, não um indivíduo.

As empresas têm obrigação e responsabilidades sociais, coisa que os sócios, conselheiros e até torcedores uniformizados, que mandam bastante nos clubes do Brasil, não necessitam fazer. Eles simplesmente somem e deixam fortunas em dívidas. Modelo superado que reflete em jogos de baixo nível. Até quando?

Parabéns, River!

Leia o post original por Celso Cardoso

Foto: Gabriel BOUYS/AFP

Em 58 anos de história, pela primeira vez a taça de campeão sul-americano foi erguida fora do continente. Não por ação de marketing ou fruto de um planejamento estratégico, mas por causa da falência institucional pela qual passam países da América do Sul, incapazes de controlar a violência, especialmente quando a pauta é futebol. É bom lembrar que a decisão da Libertadores da América foi levada para a Espanha depois que o ônibus do Boca Juniors foi atacado a pedradas por “barrabravas” do River Plate. O País não foi capaz de garantir a segurança de torcedores e delegações, por isso a transferência da decisão para Madrid. Embora inusitada, o que levou muita gente a chamar o torneio de “Colonizadores da América” e não Libertadores, o jogo teve todos os elementos de uma grande final e que uma decisão desse nível merecia. Bom jogo, emoção farta e decisão na prorrogação com requintes de crueldade. Logo após o Boca acertar uma bola na trave que poderia selar o empate e levar a disputa para os pênaltis, num contra-ataque fatal, já sem goleiro – que por sua vez estava tentando o gol na área adversária -, o River marcou o gol que garantiu o tetracampeonato continental e carimbou o passaporte para o Mundial de Clubes de Fifa que começa na próxima quarta-feira nos Emirados Árabes. Tudo isso é digno de comemoração, mas nada se compara ao fato de ter vencido na decisão, seu maior rival, o Boca Juniors. A rivalidade entre esses dois times é uma das maiores do mundo, não por acaso chamou a atenção do planeta. Num primeiro momento, prevaleceu a vergonha fruto da incompetência argentina e da Conmebol de realizar um evento como esse. Agora ficou a lembrança do bom futebol da final, em especial a melhor qualidade dos Millonarios que com toda justiça levantaram a taça. Parabéns ao River.

Chance mínima, mas tem.

Leia o post original por Flavio Prado

Nos últimos anos o Mundial de Clubes tem sido um simples passeio para os europeus por várias razões. Primeiro porque eles são infinitamente melhores como times, segundo, estão no meio da temporada e não no final como os brasileiros, por exemplo. E terceiro porque não estão nem aí com o evento. Vão lá para ganhar grana e divulgar a marca. O torneio não empolga a Europa.

Em cima disso o River Plate, campeão da América, que em tese não teria qualquer chance diante do poderoso Real Madrid, representante da UEFA, talvez possa sonhar. Não dá para comparar uma equipe com a outra em nada. Dinheiro, organização, grau de exigência e jogadores do Real estão num outro patamar.

Mas o Real vive um momento péssimo, o pior dos últimos anos. O River está com moral altíssima, após ganhar do Boca numa final histórica. Ainda respira o sucesso. E isso pode ajudar os argentinos. De zero passa a ter 5 ou com boa vontade 10%.

O estilo do River não ajuda. O Real sofreu contra japoneses, recentemente, por causa da correria. O River toca a bola como o Real. E aí há um abismo entre os times. Sei que para os espanhóis tanto faz ganhar ou perder essa decisão de “Mundial”. Mas ainda assim tem tudo para ganhar com tranquilidade.

Exóticos

Leia o post original por Flavio Prado

A técnica dá lugar a momentos de virilidade da qual os jogadores, que disputam essa competição, se orgulham.

 

 

Boca Juniors e River Plate jogando uma decisão na Europa só pode ser vista como exótica. A incompetência sul americana e as atitudes sempre suspeitas dos dirigentes da Conmebol, tiraram do torcedor portenho comum a chance de ver uma final inédita.

Para os espanhóis acostumados a assistir grandes momentos da Champions League, uma partida deste nível é algo diferente. A técnica dá lugar a momentos de virilidade da qual os jogadores, que disputam essa competição, se orgulham.

Para mim Boca e River é sempre bom de ver e curtir. Os dois times são sensacionais no nosso cenário. Entre os europeus, que conseguiram limpar os estádios dos marginais uniformizados, fica difícil entender como não conseguiram fazer um jogo dentro do próprio continente. São exóticos.

A morte do Catiça

Leia o post original por Flavio Prado

Ele era sambista e jogador de futebol da periferia. Conhecido pela rapidez e valentia, não fugia do jogo nem da briga. Personagem dos campos de várzea da Zona Leste, circulava facilmente em todas as tribos. Catiça era respeitado do jeito mais puro e simples dos lugares mais distantes de São Paulo.

Convivi com ele. Casado com minha prima, vi o respeito que impunha jogando ou sambando. Nos campos sem grama era sempre um dos primeiros a ser escolhido nas peladas e cansou de erguer taças em festivais. Na Escola de Samba Nenê de Vila Matilde, tinha a ginga e o entendimento para ficar entre os bambas.

Saiu pouco do seu pedaço. Só uma vez foi até o Japão ver o Palmeiras brigar pelo Mundial contra o Manchester United. Vendeu o que podia e comprou uma passagem a “perder de vista”. E foi de lascar. Além de sair com sua bermuda e chinelos de dedos de Sampa e quase morrer no desembarque na neve de Tóquio, o Palmeiras perdeu e o carnê com as prestações da aventura ficaram atormentando por muitos anos.

Nos últimos tempos estava ainda mais recluso. Respirava com dificuldades, a memória falhava e então optou por ver suas paixões apenas pela televisão. Vibrou domingo com o título brasileiro do Palmeiras e já sabia de cor o samba da Nenê de 2019. Ontem a noite a respiração estava muito complicada. E foi um tal de inalação para lá e para cá, desanimando-o sobre uma plena recuperação e a volta aos bons dias.

De repente um mal súbito e o coração parou. Catiça da várzea, do samba, da Penha, da Vila Esperança, Vila Matilde e tantos cantos da periferia estava morto. Os amigos entenderam que ele cansou. O jogo da vida dele tinha chegado ao fim sem sofrimentos e depressões. O samba da Nenê terá uma voz a menos no Anhembi no ano que vem. Os clássicos dos campos pelados não terão mais seus piques. Catiça se foi em silêncio. Mas seu nome ficará eternizado pelas lendas da Zona Leste.