Arquivo da categoria: violência no futebol

São Paulo sem graça no Morumbi vazio

Leia o post original por Antero Greco

Imagino como devam estar felizes os valentões que no sábado invadiram o CT do São Paulo para ameaçar e agredir jogadores. O resultado da violência dos estrategistas do caos se viu na tarde deste domingo, no empate por 0 a 0 com o Coritiba. O time mostrou futebol insosso, contido e pouco eficiente. Para arquibancadas vazias no Morumbi.

Ricardo Gomes escalou Michel Bastos, um dos mais visados nos protestos. Carlinhos e Wesley, outros na ira dos descontentes, esquentaram banco. Michel sumiu no meio-campo, assim como Hudson, Thiago Mendes, Cueva e Kelvin. A turma não funcionou. Na frente, Chavez fez o que pôde, perdeu uma chance no primeiro tempo e criou outra na segunda fase.

A compensação fica para a defesa. O argentino Buffarini e o chileno Mena ocuparam as laterais. E, pelo visto, o treinador desistiu de Bruno e Carlinhos, antes os preferidos. Lyanco jogou na vaga de Rodrigo Caio, machucado. Denis trabalhou menos do que o habitual, pela opção do Coritiba em defender-se antes de mais nada. O Coxa veio para garantir ao menos o empate, e fiou feliz.

Para não dizer que tudo foi ruim, o São Paulo até esteve ligeiramente mais ativo do que em outras ocasiões. Ainda assim, muito aquém do necessário para sair da situação incômoda de coadjuvante no campeonato. Com 28 pontos, circula pela 11, 12.ª colocações. E tem de dar graças a Deus que todo mundo anda roubando pontos de todo mundo. Senão, estaria perto da degola.

O próximo desafio é o Palmeiras, no dia 7, no Allianz. Vale lembrar que o jogo será com torcida única. No caso, a verde.

 

Santos, líder do Ibope

Leia o post original por Odir Cunha

Como já esclareci em muitos textos anteriores deste blog, está provado que os jogos de futebol que dão mais audiência na tevê são os decisivos, as partidas finais dos campeonatos. Assim, nunca saberemos que time dará maior Ibope em uma competição a não ser depois que ela termine. E em 2015, quando já temos as definições de todas as competições disputadas no Brasil, é possível dizer que a maior atração do futebol na tevê foi o Santos.

Presente nas maiores audiências do Campeonato Paulista, do qual foi campeão, e da Copa do Brasil, em que jogará a final, o Santos ainda tem Ricardo Oliveira, o maior artilheiro do Brasil este ano; Lucas Lima, a maior expressão técnica do futebol nacional nesta temporada; é o único time do País com dois titulares na Seleção Brasileira e é sempre lembrado como a equipe formadora do astro Neymar, que este ano concorre novamente ao posto de melhor jogador do mundo.

Como já dissemos, há vários indícios da grande popularidade do Santos no Brasil, como a terceira posição na fidedigna e abrangente Timemania, a quinta posição nas pesquisas de torcida pelas redes sociais da Internet, o número de visualizações no seu canal no Youtube, que coloca a SantosTV como a quinta mais assistida no mundo… Enfim, evidências não faltam. Mas vamos falar, exclusivamente, do Ibope na TV.

No Campeonato Paulista, depois de muito tempo, a TV Globo transmitiu um jogo na tarde de domingo sem a presença do alvinegro de Itaquera, o seu time protegido. E o que ocorreu? Santos e Palmeiras, na Vila Belmiro, superaram a audiência de vários jogos da Copa Libertadores deste ano que tinham como protagonista o parceiro da Globo.

Clique aqui para saber que o clássico Santos e Palmeiras, na Vila, superou a audiência de vários jogos da Copa Libertadores deste ano.

A maior audiência do Campeonato Paulista veio da partida decisiva, na Vila Belmiro, em que o Santos venceu o Palmeiras no jogo e na disputa de pênaltis. A partida deu cerca de 23 pontos na Globo e 6,2 pontos na Band, somando cerca de 29 pontos no total. A história se repetiu na Copa do Brasil, que só passou a ter bons índices de audiência com os jogos do Santos.

Clique aqui para saber que o Santos começou a levantar a audiência da Copa do Brasil.

Mais um recorde de audiência de um jogo do Santos na Copa do Brasil.

Santos x São Paulo deu mesmo Ibope de Galo x alvinegro de Itaquera

Perceba nas duas matérias a seguir que o jogo entre Santos e São Paulo, pela Copa do Brasil, atingiu os mesmos 29 pontos de audiência de Atlético Mineiro e alvinegro de Itaquera, este último o de maior Ibope no Campeonato Brasileiro, com o detalhe de que na TV Globo o jogo do Santos teve mais espectadores:

Esta matéria fala do jogo de maior audiência no Campeonato Brasileiro.

Esta fala do jogo Santos e São Paulo, pela Copa do Brasil, que deu a mesma audiência do jogo decisivo do Brasileiro: 29 pontos, com liderança na TV Globo.

Final da Copa do Brasil baterá todos os recordes do ano

Ninguém duvida de que os dois jogos entre Santos e Palmeiras, pela decisão da Copa do Brasil – marcados para as noites de quarta-feira 25 de novembro, na Vila Belmiro, e 2 de dezembro, no Allianz Parque – obterão a maior audiência do futebol brasileiro em 2015. Isso ocorrerá não só pela popularidade desses dois times, mas também pela qualidade esperada dos jogos e também pela importância dos confrontos, que decidirão o título da Copa do Brasil e uma vaga para a Copa Libertadores de 2016.

Diante desses números, é pertinente perguntar se é justo manter esse sistema de distribuição de cotas de tevê estabelecido pela Rede Globo, que destina a um clube como o rubro-negro carioca, que não conquistou nenhum título e não chegou sequer a nenhuma final este ano, um valor que é mais do que o dobro daquele que será destinado ao Santos e 60 milhões de reais a mais do que a verba de Palmeiras e São Paulo?

Obviamente, o sistema implantado pela Rede Globo joga a meritocracia no lixo e vai na contramão das fórmulas bem-sucedidas empregadas na Alemanha e na Inglaterra, países que mantém os campeonatos nacionais mais prósperos e competitivos.

A Globo é a emissora certa para o futebol brasileiro?

Várias enquetes já provaram que o torcedor brasileiro prefere que os jogos noturnos de futebol comecem às 21 horas, no máximo. Para quem precisa acordar cedo para trabalhar, ou estudar, esse horário das 22 horas é proibitivo. Pesquisas mostram que o público nos estádios era bem maior quando os jogos noturnos começavam mais cedo.

Esse horário também é ruim para os atletas. Segundo fisiologistas, os jogadores não deveriam ser expostos a tanto esforço físico e psicológico em horário tão tardio, o que prejudica seu rendimento e, principalmente, o seu descanso. Porém, indiferente às queixas, a Globo insiste em colocar os jogos às 22 horas, depois da sua tradicional novela.

Outro detalhe que coloca em xeque a posição da Globo como a tevê dominante do futebol brasileiro são as investigações de corrupção nas quais ela é acusada. Há fortes suspeitas de que a emissora deu propina a Ricardo Teixeira, presidente condenado por corrupção. Será ético manter a Globo no comando do nosso futebol enquanto as investigações não forem concluídas? Analise você mesmo:

Jogo do Brasil e o assassinato do santista

Para não dizer que não falei do jogo desta noite, entre Argentina e Brasil, lembrarei que há um mês estava em Buenos Aires e pude perceber a importância que já davam a esta partida, para a qual vão se entregar de corpo e alma pela vitória. Não creio que o Brasil sairá de lá com a vitória e digo mesmo que, apesar de torcer muito para queimar minha língua, o resultado mais lógico é a vitória da Argentina.

Sobre a morte do santista agredido covardemente em um posto de gasolina da Zona Leste por um torcedor do Palmeiras, só alerto que não devemos generalizar. Palmeirenses não são piores nem melhores do que santistas. Esses que mataram não passam de animais assassinos e usam o futebol como desculpa para demonstrar seu ódio dos seres humanos.
Espero que não haja vingança, que os responsáveis sejam detidos e o fut4ebol, aos poucos, possa voltar a ser apenas um esporte – importante, posto que é a expressão da alma brasileira, mas ainda apenas um esporte.

É triste não só porque é um santista, é triste porque é um ser humano. Ninguém merece morrer assim.

E você, o que acha disso tudo?


O país do futebol

Leia o post original por Rica Perrone

Brasil, o país do futebol.  Embora as recentes discussões apontem que isso tenha mudado com uma derrota na Copa e uma fase ruim, ainda somos o país do futebol. As discussões sobre o assunto, no entanto, me assustam. É congresso pra discutir a violência no futebol, mídia se pegando na tv o dia todo pra […]

Universo paralelo

Leia o post original por RicaPerrone

José não pode agredir alguém na rua. Vai preso.  No estádio de futebol, faz fichinha de inscrição.

Se lá fora há uma lei, acho que ficou muito claro nos últimos anos que lá dentro ela não é válida.  Se fosse, ninguém estaria discutindo mil formas estúpidas de punir clube, organizada e até torcedor de bem. Era só pegar a imagem, prender o bandido, tudo resolvido.

Mas não. Eles não querem, ou não conseguem. Então, fazem um circo fingindo que precisa criar mecanismos para punir os selvagens das organizadas.

Ora, meus caros. Há uma imagem. Se eu der com um pau na cabeça de alguém eu vou preso e ponto final.  Porque uma nova lei? Um novo mecanismo se é só aplicar a lei que está acima de todos nós?

Porque um estádio isola pessoas das leis do país?

O Atlético e o Vasco foram punidos com mandos de campo e jogos de portões fechados.  Ou seja, você, vascaíno de bem, paga pelo marginal que quase matou o torcedor rival no último domingo.

Porque? Porque não o identificaram?

Não. Porque em algum momento da vida a polícia e a justiça brasileira entenderam que crime dentro de campo de futebol, ou vestindo camisa de time, não é crime.

Porque diabos estamos brigando, afinal? O que tanto discutimos, senhores?

O bandido está exposto, identificado. Prendam-no!

Não faça fichinha dele.

E então, depois da tentativa mais básica de todas, mas jamais colocada em prática, saberemos se basta ou não.

abs,
RicaPerrone

Corinthians e Vasco pagam por descuido histórico

Leia o post original por Antero Greco

O tribunal esportivo condenou Corinthians e Vasco a terem quatro mandos de jogos sem público – ou com público apenas parcial (os seguidos dos visitantes). A punição é consequência do vandalismo de representantes de organizadas dos dois clubes, no clássico disputado dias atrás em Brasília. O tribunal entendeu que as agremiações tiveram responsabilidade na atitude descontrolada e violenta de seus torcedores. Por isso, pagam o pato.

Quer dizer, pagarão o pato, se a sentença for mantido e se logo mais não aparece uma liminar… Não me surpreenderá.

A decisão provoca polêmicas pra mais de metro. Há os que se alinham a favor de cobrar dos clubes a parcela que lhes cabe de culpa pelo comportamento dos fãs – seja com multas e/ou com perda de mando de jogos, portões fechados e similares. Assim como existem os que discordam e preferem ver a força da lei recair apenas sobre os baderneiros.

Ambos os lados têm argumentos aceitáveis e esdrúxulos para justificar suas convicções. Para não ficar em cima do muro, adianto que sou a favor de punição ampla, para times e torcida. Vou mais longe: e cobrança de autoridades públicas, quando for o caso.

Para não fazer um comentário longo aqui e tomar seu tempo, resumo. Clubes e federações deveriam cuidar de todo o espetáculo, sobretudo na parte interna. Não é só levar porteiros, sorveteiros, gandulas, ambulância e outros apetrechos. Mas sobretudo cuidar da segurança. Não é ter milícias internas, mas gente preparada para orientar o espectador e conter tumultos. Quem sair da linha, sai do espetáculo – e encaminhado para autoridades policiais.

A polícia tem de cuidar do entorno, das ruas, que são públicas. Para tanto, pagamos impostos. Dentro dos estádios, em que são realizados eventos com fins lucrativos, a responsabilidade precisa ser delegada a quem se beneficia dela. Clubes e federações.

Clubes também devem assumir culpa por aquilo que fazem os torcedores, pois só assim tratarão de cuidar desse aspecto. Como raramente sobra pra eles, então pra que se incomodar com detalhe tão banal? É mais fácil empurrar com a barriga e para o Poder Público. De vez em quando, ficam indignados por pagar por um descaso histórico.

Sem contar um detalhe fundamental: clubes têm ligações com, digamos, parcela privilegiada das torcidas (para ficar em politicamente corret). Por mais que neguem, há fãs especiais, muitos são sócios dos respectivos clubes, frequentam a sede, vão a churrascos. Há até comissões de representantes recebidas para dar palestras de incentivo para atletas. Ainda mais quando as coisas não vão bem para o time, eles aparecem para animar…

E, finalmente, é evidente que os vândalos precisam ser punidos. Enquanto eles não pagarem, de diversas formas, por delitos que cometem dentro (e fora) de estádios, continuarão a pouco se lixar para a Justiça. Querem mais é que o mundo se exploda – e levarão terror, aqui, em Brasília, no Rio, em Oruro, em Tóquio, na Conchinchina…

O mistério está no fato de que raramente são identificados. Ou, quando o são, preenchem uma ficha e são liberados. Vai entender…

Lição de ouro de Oruro: a impunidade vence

Leia o post original por Antero Greco

Durante meses houve movimentação para livrar o grupo de 12 corintianos detidos na Bolívia, após a morte de Kevin Espada. A alegação era a de que se tratava de arbitrariedade, pois um menor de idade assumiu, em público, a responsabilidade por ter atirado o sinalizador assassino. Os outros pagavam por aquilo que não fizeram.

A turma foi liberada, após visita de políticos, de diplomatas e pressão do governo brasileiro. Os 12 discípulos fiéis estão livres de qualquer acusação e podem movimentar-se como cidadãos normais nesta abençoada terra de Santa Cruz. A morte do Kevin é problema da família dele e da justiça da Bolívia.

Daí, o Estadão desta terça-feira prova que um dos empolgados briguentos de domingo, no intervalo de Vasco x Corinthians, era um dos coitados que passaram a pão e água em cárcere em Oruro. Ele parecia bem disposto e com energia para enfrentar polícia e vascaínos.

O que aconteceu com esse moço? Nada. Vai ver preencheu um termo de responsabilidade, foi liberado e voltou para São Paulo sem ser molestado. E talvez se prepare para dar uma força para o Corinthians amanhã contra o Luverdense, no Pacaembu.

Quem sabe não arrume um sósia “dimenor” para mostrar que tudo não passou de engano, de uma “barriga”, como se diz quando um jornal dá bola fora? Tese maluca, mas não me surpreenderia nada. Sem contar que não há denúncia, ainda, nem flagrante.

A impunidade segue, sempre com a mesma origem, e o discurso oficial está mais para engana-trouxa do que para manifestação de princípios. Hipocrisia sem fim.

Todos por um*

Leia o post original por Antero Greco

Em circunstâncias normais, estádio vazio é deprimente. A sensação de opressão aumenta, se o esvaziamento ocorre como consequência de punição para uma das equipes. Pior se a restrição se deve a atos de violência – ou do clube ou de seus seguidores. Mas nada disso se compara à gravidade, à dor de uma vida que se perdeu por ato de ignorância, mesmo sob alegação de que foi sem intenção e provocado só por uma pessoa.

Essa conta amarga em parte será paga pelo Corinthians, na noite de hoje, ao apresentar-se contra o Millonarios, no Pacaembu, sem o calor do público. A medida da Conmebol desencadeou reações variadas, de apoio a repúdio, de compreensão a revolta. A atitude dura e rara chocou, porque a instituição que comanda o futebol na América do Sul está longe de ser modelo de rigor e retidão.

Há motivos de sobra para criticar a Conmebol, entidade estranha, permissiva, conivente, pouco transparente e lerda para tomar decisões importantes e de impacto. São incontáveis os episódios em que ela pôs panos quentes e evitou atritos com peixes graúdos. Desta vez, não teve como omitir-se. A repercussão da morte do jovem Kevin Beltrán Espada fugiu ao controle de toda espécie de bombeiro de ocasião. A turma instalada na suntuosa sede em Assunção teve de mexer-se, aplicou o regulamento da Libertadores e tomou o Corinthians como alvo. Nem que seja por um jogo apenas, mas não dava para manter o tradicional ar de paisagem.

O time brasileiro fez de tudo para anular a sentença preventiva – começou com lágrimas e nota de pesar, luto oficial, bandeira a meio pau, braçadeira preta para os jogadores. Não houve comoção geral. Daí, subiu o tom, lamentou que a nação alvinegra seria prejudicada por causa de um, acenou com prejuízos financeiros, entrou com recurso. Também não adiantou. Até que ontem admitiu vetar a presença dos meios de comunicação no estádio, e alguns de seus dirigentes desceram a lenha na Conmebol. Pairou teoria da conspiração no ar.

O Corinthians é infinitamente maior do que os eventuais milhões que deixará de arrecadar por uma ou mais partidas na Libertadores com portões fechados. O presidente Mario Gobbi mesmo afirmou, no ano passado, que o clube estava acima da competição, ao sugerir que vencê-la ou não pouco mudaria o prestígio de uma lenda centenária. O gesto supremo de grandeza, neste momento, seria aceitar a punição, até assumir o papel de bode expiatório e em solidariedade ao rapaz morto. Ao mesmo tempo, assim transferia a atenção para a origem do problema – e ela está nas arquibancadas, em gente conhecida, que em nome de uma suposta paixão já levou alegria e muito horror por aí.

Clubes são punidos, como responsáveis pelo comportamento da torcida. Nos anos 1980, os ingleses ficaram suspensos de torneios europeus por várias temporadas, após a chacina provocada por adeptos do Liverpool numa final de Copa dos Campeões. Naquela oportunidade se alegou que foi apenas uma torcida violenta. Pagaram todos. Com uma diferença fundamental: a partir de então, os hooligans passaram a ser seguidos, vigiados e fichados. Aos poucos, foram identificados e banidos dos estádios. Os incidentes diminuíram demais.

Eis excelente chance para que as autoridades responsáveis pelo esporte e pela segurança sigam o exemplo, com quase 30 anos de atraso. Ok, que as equipes respondam pelos fãs. Mas acima de tudo que os fomentadores de terror nos estádios sintam sobre si o peso da lei e paguem a parte deles.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 27/2/2013.)

Ficção e vida real*

Leia o post original por Antero Greco

Há tanta ficção por aí que em certos momentos a gente parece viver no mundo da fantasia. A ponto de fatos e personagens reais soarem como invenção, coisa de teatro, cinema, romance, novela, ou – quem sabe? – Big Brother. Como se nada fosse verdadeiro e todos representassem papéis previamente ensaiados.

Essa sensação paira no ar, com a decisão de apresentar-se o suposto autor do disparo do sinalizador que no meio da semana passada matou o boliviano Kevin Beltrán. Com direito a entrevista na tevê, o rapaz de 17 anos – portanto, menor de idade – assumirá responsabilidade pela tragédia ocorrida em Oruro.

O moço responderá pelo ato diante de autoridades brasileiras e vai submeter-se à legislação do país específica para os delitos cometidos por pessoas abaixo dos 18 anos de idade. Costuma-se sugerir penas alternativas e educadoras para os enquadrados nesses casos.

Com isso, se supõe, fica esclarecido o episódio chocante da quarta-feira e se escancara a porta para que se faça justiça. Ao mesmo tempo, abre-se caminho para que os 12 torcedores detidos na casa do vizinho sejam liberados, pois o culpado apareceu e o mistério se desfez.

O caso continuará a seguir os trâmites normais, mas com alguma mudança de rumo daqui em diante. Suspeitos e acusados precisam ter garantias de defesa ampla, como princípio básico de direito humano em qualquer parte do mundo. Mas a esperança é de que a atenção se concentre no adolescente que resolveu abrir o jogo. Espontaneamente, conforme afirmam os que lhe são próximos.

Continua a impressão de que a vida real se confunde com a imaginação de roteirista pouco criativo. Certo mesmo é que Kevin não era personagem de ficção, morreu estupidamente aos 14 anos e talvez se transforme apenas em mais um número na estatística das vítimas da violência no futebol. Fica a dúvida até se a memória dele será honrada – e isso vai bem além de uma faixa de solidariedade estendida num estádio.

Logo a rotina será retomada e todos, atores e público, estaremos à espera da nova tragédia. Real, e não fictícia.

*(Parte principal da minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 25/2/2013.)

Símbolo improvável*

Leia o post original por Antero Greco

A Bolívia foi palco, há quatro décadas e meia, da consolidação do mito Che Guevara. Desde que foi assassinado pelo exército local, em La Higuera, várias gerações cultuaram a lenda do guerrilheiro argentino, e a imagem dele ainda hoje circula pelo mundo, em pôsteres ou impressa em camisetas. Muitos moços nem sabem quem tenha sido, nem o que tenha feito, mas desfilam no peito com o que consideram talvez um ícone pop.

Nestes anos iniciais do século 21, o país andino, por infeliz coincidência, pode servir de marco na luta contra a barbárie nos estádios. Um jovem nativo, quem sabe, não se torne símbolo de campanha pela paz entre torcidas? A memória do adolescente Kevin Beltrán Espada será respeitada de fato não só se houver a punição dos responsáveis pela estúpida morte, ocorrida na quarta-feira à noite, com o impacto de um foguete sinalizador que desfigurou seu rosto. Mas sobretudo se o sacrifício involuntário da vida dele desencadear um movimento de conscientização de que os campos de futebol são locais de alegria e de liberdade, e não de dor e extermínio.

A imolação do rapaz de 14 anos precisa servir de referência para ações honestas, perseverantes e justas, que protejam os fãs de esporte e inibam os terroristas das arquibancadas. O inocente que caiu, tão logo o San José sofreu gol do Corinthians, tem de ser tomado como bandeira pelos cartolas bolivianos, brasileiros, sul-americanos, mundiais ou sei lá mais quem, numa cruzada contra os insensatos que se consideram super-heróis porque brigam, matam e morrem pelo time ou pela organizada.

Pausa. Os três parágrafos iniciais desta crônica soam como divagação e fantasia? Concordo. Deixei-me levar por entusiasmo, o que nem sempre cai bem para um homem maduro. Devaneio e tanto imaginá-lo emblema como o Che. Um participou de revolução, o outro não passava de menino comum interessado em jogo de bola. O primeiro derrubou um regime, o segundo, provinciano, tinha aproveitado a noite de folga para curtir uma partida da Libertadores. “Libertadores” também parece ironia…

O destino mais provável de Kevin é cair no esquecimento, exceto para os parentes, que carregarão a lembrança dura da perda e ficarão à espera de justiça. O mundo tem pressa, os assuntos não podem demorar-se nas páginas dos jornais, na tevê, ou na internet. O público continuadamente pede temas novos e vibrantes. Caso contrário, bate a monotonia e… a audiência despenca.

O roteiro é conhecido e repetitivo. O momento inicial provoca impacto, cólera, uma enxurrada de comentários nas redes sociais e pedidos de atitudes firmes. Dirigentes, políticos, especialistas, peritos, polícia são ouvidos e prometem medidas drásticas. Suspeitos são detidos e paira no ar sede de vingança a todo custo.

Aos poucos, a ira arrefece e o discurso muda. Espera aí, não foi bem assim, não houve intenção de matar, que é isso, ninguém é bandido, o pessoal abusou um pouco, puxa aquilo acabou com nossa animação, foi mal mesmo, fazer o quê?, vamos dar força pra família. O blablabá de costume.

As reflexões em torno da gravidade do episódio já descambaram para polêmicas com ranço clubístico, numa leviandade de embrulhar o estômago. O Corinthians, em princípio solidário no drama de Kevin, foi previamente punido pela Conmebol, mas recorre e alega prejuízos se tiver de jogar com estádio vazio. A torcida prepara ato de desagravo, porque se sente aviltada com os portões fechados.

Não, Kevin não será um Che.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 24/2/2013.)

Chega de barbárie!*

Leia o post original por Antero Greco

Mortes provocam dor, luto e, muitas vezes, indignação. Como foi o caso do adolescente boliviano atingido por um sinalizador, enquanto assistia ao jogo entre San Jose e Corinthians, na noite de anteontem. Qualquer pessoa com o mais leve resquício de bom senso e de respeito pela vida ficou impressionada com a estupidez da tragédia. Um desastre que dá o que pensar e que exige uma guinada drástica na maneira como se encaram delitos cometidos em estádios de futebol pela América do Sul.

O choque desencadeia reações positivas, que sacodem o marasmo e ameaçam privilégios e condutas brutais consagradas como rotineiras. Estas devem ser levadas adiante. A comoção ao mesmo tempo estimula uma onda de intolerância e desemboca no raciocínio simplista de que tudo deva ser proibido nos campos de futebol. Postura tão nefasta quanto a dos bandos organizados.

A alegria e a espontaneidade não podem desaparecer das arenas esportivas. Isso seria negação da vida e também uma forma de violência. Não se deve recorrer a medidas autoritárias, em geral oportunistas e vazias. Não cabe exigir uma infinidade de vetos de ocasião – aos bumbos, às bandeiras, às coreografias nas arquibancadas, aos corinhos contra árbitros, às vaias aos jogadores. Estádios devem ser espaços democráticos.

É preciso doutrinar fãs, mostrar-lhes limites, regulados por simples regras de boa convivência, e também escancarar as penas a que se expõem com atitudes estúpidas. A impunidade virou aliada de quem vai a campo para brigar, ferir, matar – e deve ser extirpada. A parcela de vândalos é pequena – portanto, lei e educação neles. A maioria não pode pagar por boçais. Não à barbárie nem à cultura do medo e da repressão generalizada!

Os irresponsáveis que acionaram os sinalizadores cometeram delito grave. Podem alegar que nem de longe lhes passou pela cabeça causar danos e que também correram riscos. Argumento tosco, frágil, cara de pau. Ninguém com lucidez tenta entrar no estádio com artefatos dessa natureza. Não se trata de singelas “chuvas de prata”, inofensivas e festivas, que toda criança pode manejar. Mas de objetos para uso específico e que se transformam em armas. Não há inocência em quem burla a vigilância (ou tem a cumplicidade dela) para carregar tal tipo de tranqueiras para o meio do povo.

Quem age assim se escora na tradição permissiva dos torneios desta banda do Atlântico. Quantos arruaceiros e criminosos fantasiados de torcedores foram presos por atirar pedras, rojões, latas, copos de água, pilhas em adversários, dentro e fora do gramado? Quantos estádios a Conmebol interditou por não darem segurança para visitantes ou por desrespeitarem direitos do consumidor? Quantos times foram excluídos por mau comportamento de seus seguidores? Quantos cartolas foram afastados por conivência ou por ligações com gangues uniformizadas?

Dirigentes mumificados se preocupam com acertos de patrocínio, reeleições eternas, rapapés recíprocos e viagens. E se lixam com padrões de excelência para os campeonatos. Atos de terror são praxe na Libertadores, na Sul-Americana, e não dão em nada! Suspendam clube grande, controlem e punam desordeiros, apliquem suspensões em jogadores desleais pra ver se não ocorrerão mudanças.

A evolução passa pelo comando do futebol, por educação e por ações firmes da Justiça. À espera delas, hordas continuarão a deslocar-se com apoio sabe-se lá de quem, times apelarão para todo tipo de artifício para vencer. E mais jovens morrerão.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 22/2/2013.)